É hora
de avançar | 30.10.2008
Na comparação com seus parceiros do Bric, o Brasil apresenta
muitas vantagens - avanço econômico sólido, energia
de sobra, exportações diversificadas e democracia vigorosa.
A crise pode abrir espaço para um novo salto
Por Michael Reid - Revista Exame
Há exatos dez anos, em agosto de 1998, a Rússia
dava o calote em sua dívida e desvalorizava o rublo. Na visão
de muitos investidores financeiros, o Brasil, com sua taxa de câmbio
atrelada ao dólar e grande déficit em conta corrente,
era o próximo da fila, a "bola da vez". Quatro meses
depois veio a traumática desvalorização do real,
que o governo Fernando Henrique Cardoso se esforçara muito
para evitar, com um grande custo financeiro para o país. Muitos
comentaristas viram na desvalorização a derrota do
Plano Real e do empenho de FHC em estabilizar e modernizar o Brasil.
Na verdade, ela marcou a consolidação da nascente estabilidade
do país e criou o trampolim para o crescimento.
Como chefe da sucursal da revista The Economist em São Paulo
entre 1996 e 1999, convenci-me de que o Brasil estava engajado num
processo de reforma democrática e modernização
econômica que, apesar de lento, paulatino e cercado de problemas,
era sólido e duradouro, como escrevi na época. Mas
foi preciso quase uma década para esse esforço dar
frutos e tornar-se visível para aqueles cujo conhecimento
do Brasil se limita a estereótipos datados. Um primeiro revés
surgiu em 2001, com os blecautes e as reverberações
do colapso financeiro na Argentina. A conversão de Luiz Inácio
Lula da Silva à causa da estabilidade econômica - uma
contribuição vital para o sucesso do país -
veio tarde demais para impedir outro surto de nervosismo financeiro
em 2002. Para conter a decorrente elevação acentuada
da inflação, foi preciso um ano de taxas de juro altas
e estagnação. Depois, o escândalo do mensalão
levantou o espectro da instabilidade política. Mais uma vez,
o Brasil parecia ter um desempenho aquém de seu potencial
- como sempre, o país do futuro distante.
Há dois anos apenas, ainda era grande o ceticismo no exterior
sobre a possibilidade de o Brasil realmente pertencer ao Bric, o
clube de grandes países em desenvolvimento que, para economistas
do Goldman Sachs, dominarão a economia mundial até 2030.
Comparado com os outros - Rússia, Índia e China -,
o Brasil era visto como uma tartaruga econômica, contida por
uma taxa de crescimento morosa, altas taxas de juro, desempenho educacional
fraco, infra-estrutura deficiente, desigualdades profundas, violência
e uma dificuldade generalizada para fazer negócios. A maioria
desses problemas é real. Mas o Brasil hoje se coloca entre
os países do Bric mais por seus méritos comparativos
que por seus defeitos.
A China sempre será um caso à parte em razão
de seu tamanho. Mas os protestos no Tibete e a violência em
Xinjiang durante os preparativos para os Jogos Olímpicos foram
um lembrete de que seu regime político autoritário
esconde uma instabilidade potencial. Alguns analistas começam
a perceber que, apesar de toda a força de suas empresas de
alta tecnologia e sua elite que fala perfeitamente o inglês,
a Índia ainda é muito pobre, não dispõe
de uma infra-estrutura moderna e enfrenta conflitos religiosos. E,
nos últimos meses, a Rússia lembrou ao mundo por que
ela é uma aposta arriscada. Sua resposta brutal à malfadada
tentativa da Geórgia de retomar a Ossétia do Sul afugentou
investidores estrangeiros. O governo autoritário da Rússia
a torna inerentemente imprevisível. E sua economia depende
pesadamente de petróleo e gás natural.
Agora, outra vez a moeda brasileira e a bolsa estão caindo.
Desta vez, as causas do nervosismo são majoritariamente externas.
Os próximos meses vão colocar à prova a estabilidade
brasileira. Ainda assim, é preciso destacar que o Brasil tem,
comparativamente, muitas vantagens. Seu crescimento econômico
pode não ser espetacular, mas avançou solidamente.
O nível atual de 5% pode parecer minúsculo comparado
ao da China ou ao da Índia, mas o Brasil está crescendo
sobre uma base muito superior: sua renda per capita está em
4 720 dólares, ante 2 010 dólares da China e 820 dólares
da Índia, segundo dados do Banco Mundial. O Brasil já teve
sua "fase chinesa", com crescimento em torno da média
anual de 9% dos anos 50 aos 70, sustentado por uma combinação
do trabalho de migrantes do campo com o capital industrial. Diferentemente
da Rússia (e da Venezuela), o crescimento brasileiro não
depende hoje de uma única commodity: suas exportações
variam de minério de ferro, soja e suco de laranja a carros
e aviões a jato. Acima disso tudo, o Brasil tem a possibilidade
de vir a ser uma superpotência energética graças
ao etanol de cana-de-açúcar e às novas descobertas
de petróleo.
Boa parte do crescimento está sendo gerada pela expansão
da demanda doméstica. Isso é um tributo ao sucesso
da estrutura política construída após a desvalorização
de 1999, com taxa de câmbio flutuante, metas de inflação
estabelecidas por um Banco Central operacionalmente independente
e uma meta fiscal que envolve grandes superávits primários
para reduzir gradualmente os encargos da dívida pública.
Essas políticas provaram seu valor no ano passado, quando
países de todo o mundo foram atingidos pelos demônios
gêmeos de preços recordes do petróleo e escassez
de crédito. Os investidores notaram a ação firme
do Banco Central, elevando por diversas vezes a taxa Selic neste
ano para enfrentar o aumento da inflação, induzido
pelos altos preços internacionais do petróleo e dos
alimentos. A aparente determinação do BC, a despeito
dos uivos de protestos (de alguns setores do governo inclusive),
oferece motivos para confiar num arcabouço firme e estável
para o crescimento.
A nova imagem internacional do Brasil não decorre apenas
de seu crescimento, suas políticas econômicas e seus
padrões de comércio. Também se deve ao fato
de que, à diferença de China ou Rússia, o Brasil
tem uma democracia cada vez mais robusta. O progresso social é palpável.
A proporção de brasileiros vivendo na pobreza caiu
de 48% em 1990 para 33% em 2006, segundo a Comissão das Nações
Unidas para América Latina e Caribe. Pela primeira vez em
décadas, a desigualdade está diminuindo de maneira
consistente - ao contrário do que acontece na China e na Índia.
E, como assinalou o economista Marcelo Néri, da Fundação
Getulio Vargas, os jovens adultos agora entram na força de
trabalho com três anos a mais de escolaridade do que no início
dos anos 90. É essa combinação de crescimento
estável, base diversificada de recursos naturais, política
democrática relativamente previsível e progresso social
que está criando uma sociedade de classe média que
atraiu a atenção externa para o Brasil nos últimos
dois anos. Essa mudança de atitude é simbolizada num
aporte recorde de 35 bilhões de dólares em investimento
estrangeiro direto no ano passado e na concessão de uma avaliação
de crédito com grau de investimento no início deste
ano. Isso se reflete também na decisão da União
Européia de estabelecer "uma parceria estratégica" com
o Brasil.
Mas as tormentas das últimas semanas sublinham que ainda é cedo
para os brasileiros cantarem vitória, pedirem outra caipirinha
e irem para a praia. O desempenho econômico foi bastante favorecido,
nos últimos anos, pela alta dos preços de suas exportações
de commodities. Mas, com a economia mundial entrando em recessão,
os preços das commodities estão em queda livre. Essa
percepção já está enfraquecendo o real.
Se fosse moderada e gradual, a desvalorização da moeda
daria um benéfico impulso às exportações
de não-commodities do Brasil. Mas é abrupta. Aumentará as
pressões inflacionárias e poderá exigir a manutenção
de taxas de juro relativamente altas por algum tempo. Isso, por sua
vez, pode causar problemas a uma classe média cada vez mais
endividada, cujo novo status ainda é frágil. O impacto
no balanço das empresas significa que o crescimento desacelerará fortemente
no próximo ano. Assim, seria útil que uma política
fiscal mais dura desse "um pouco mais de ajuda" no combate à inflação,
como observou recentemente o presidente do BC, Henrique Meirelles.
Se há uma vantagem na crise, é a possibilidade de
que o governo perca o sentimento de ter ganhado na loteria com o
petróleo do pré-sal. Os grandes descobrimentos de petróleo
induzem um senso de complacência de que os políticos
precisam apenas "administrar a abundância", na notória
frase de José López Portillo, presidente do México
quando este descobriu um grande campo novo de petróleo. (López
Portillo acabou presidindo a bancarrota de seu país em 1982.)
Com o petróleo caindo para cerca de 50 dólares o barril, é evidente
que a exploração do pré-sal será mais
lenta.
A crise pode também fazer com que os políticos percebam
que o Brasil poderia estar muito melhor. O emprego formal vem crescendo,
mas o código trabalhista de Mussolini, abrasileirado por Getúlio
Vargas, continua condenando muitos brasileiros à pobreza e à baixa
produtividade da economia informal. O governo ainda tira muito em
impostos e dá muito pouco em serviços de qualidade
em troca. O sistema de previdência social precisa ser reformado.
As infra-estruturas de transporte e de energia elétrica precisam
de mais investimentos. Sobretudo, a qualidade da educação
continua desastrosa, como mostraram os testes do estudo Pisa, da
OCDE, que avalia estudantes em mais de 60 países. E a violência
pode ter começado a diminuir, mas continua assustadoramente
alta. A combinação entre educação fraca
e violência, a menos que seja enfrentada, limitará a
queda da pobreza e da desigualdade.
Não há dúvida de que o sistema financeiro internacional
precisa de regulação mais forte e melhor. Mas, para
o Brasil, o risco maior agora é que os políticos tirem
conclusões erradas da crise. Com seu projeto de estatizar
os fundos previdenciários privados da Argentina, a presidente
Cristina Kirchner tem levantado o espectro de uma volta ao estatismo
dos anos 70 na América do Sul. Se o Brasil tentar segui-la
nesse caminho, estará jogando fora boa parte do que avançou
na última década.
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